Paredes de Coura 2019

Agosto é mês de férias e mês de Paredes de Coura. Por mais um ano, é local de campismo e de música, em renúncia total ao ritmo normal da vida — troca-se o pequeno-almoço por um passeio de barco pelo rio Taboão, as horas de sono encurtam-se em favor de dias mais preenchidos, e estamos bem mais perto de acreditar que a vida podia ser apenas isto: amigos, natureza e música. E quão bem melhor estaríamos! É uma semana idílica, que se recorda com saudade durante o resto do ano, e um festival referência nos seus 26 anos de vida.

Festival que, coisa sabida pelos veteranos (ou novatos bem prevenidos) não começa só no primeiro dia oficial. Preliminarmente, o Festival Sobe À Vila, para três noites de festa rija no centro de Paredes de Coura, mas nem a isso me referia: porque é habitual, logo no início de Agosto, haver quem passe um dia na margem da praia fluvial, munido de tendas, para as montar e prevenir um lugar à sombra. Agora sabemos que o devíamos ter feito também! O nosso sono terminou sempre matutinamente, com o impiedoso Sol a estufar tenda adentro; a melhor forma de dar seguimento ao dia passou sempre por um banho matinal, com a água fresca e revigorante dos chuveiros, mas houve quem encontrasse alternativas.  




Todos os dias, a margem do rio banhada pela sombra das árvores era palco de bons sonos, uma alternativa ao cedo erguer e à qual muitos recorreram — com maior ou menor preparação, como se vê na fotografia. Em simultâneo, pelas onze horas da manhã na outra margem do rio, houve durante todos os dias do festival, uma aula comunitária de yoga pela professora Joana Dias. Não participámos, mas vimos
de perto, e deu azo a muito bonitas molduras humanas logo pela manhã. 



Este período de acordar comunitário era o intervalo ideal para um passeio pela vila. Íamos em busca do delicioso pão quente da pastelaria central, assim como a fruta fresca da frutaria local: pequenas dádivas que, durante esta semana, revelam todo o esplendor que não lhes reconhecemos noutra altura do ano qualquer. Para os mais aventureiros, o percurso ascendente pela vila fora revela imensos sítios, igualmente bonitos, a partir dos quais se privilegia uma vista sobre todo o território courense. 



Para este ano, os óbvios destaques do cartaz foram Patti Smith, os The National e os New Order, todos eles nomes que, de uma forma ou de outra, representam uma velha guarda, com  ligações ao rock de outrora (no caso dos últimos, íntimos também dos Joy Division) e todos eles absolutamente desligados da modernidade do hip-hop e do trap, onda cultural predominante neste final de década; a nova geração faz-se representar pelos black midi, pelos Car Seat Headrest, até pelos improváveis Madlib & Freddie Gibbs, proposta única do hip-hop neste cartaz, e com uma ou outra proposta mais arriscada e salutar.



De resto, são questões que se menorizam neste ambiente privilegiado, no qual a música é por vezes secundária e pretexto para uma semana especial e distinta de todas as outras. Arriscamos que pouquíssimos serão os festivais (de grande dimensão) que oferecem este contacto com a natureza, o cruzamento com o mundo literário (este ano, pôde ouvir-se, no Palco Jazz na Relva, Valter Hugo Mãe, Márcia e Rui Reininho), um tão forte alheamento da rotina diária. Cria-se, ao longo de toda esta semana, um sentimento especial de comunidade; e é por isso também que lá voltamos ano após ano.

No campismo, verificámos a tendência, de há já algum tempo a esta parte, da melhoria anual das condições. A água dos serviços disponíveis é potável — uma autêntica bênção! —, os chuveiros são bons e organizados (amplos o suficiente para que, no último dia, se tenha lá manifestado uma jam session acústica!), podendo apenas melhorar-se as bancas para lavar loiça: embora funcionem bem, o sol pode tornar-se especialmente abrasador dependendo da hora do dia. Pequenos pormenores. Aplaude-se a iniciativa da organização, eventualmente apoiada por outras entidades, ao providenciar sacos de lixo para resíduos orgânicos e recicláveis, num bonito (e necessário) gesto de salvaguarda da floresta.


 

E quando, ao final do dia — já depois dos banhos na água, das travessias na slackline, das leituras à beira-rio — o espírito cedia ao baixar progressivo do Sol, era essa a altura do início do festival propriamente dito. Foi nessa hora de final de tarde que desfrutámos do encantador concerto dos Khruangbin, projecto texano mas que poderia perfeitamente provir da Ásia recôndita cruzada com a lânguida música africana. A proposta é exótica, apesar de apenas compostos por guitarra, baixo e bateria; evoca-se a estrutura repetitiva do dub, os ritmos quentes e abafados; um ambiente verdadeiramente tropical quando, perpassados pelas graves vibrações no corpo, o Sol banhava as suas últimas forças no público, gentilmente enlevados em aromas de incenso e natureza vária. 

Este concerto, assim como muita da programação do palco Jazz na Relva — a partir do qual vinha música que adocicava ternamente o ambiente de toda a margem fluvial — leva-nos a imaginar um festival sem headliners, só com estes pequenos nomes às margens do rio e passeios ao Sol, mas esta fantasia desmorona-se mal este se põe em definitivo e nos deixa entregues aos dois palcos, principal e secundário, que ocupam o recinto do festival. 

É aí que a estrutura do palco principal envolve o anfiteatro natural de Coura, e milhares de pessoas se juntam em torno deste mesmo; e essa magnífica moldura humana, iluminada pelos holofotes direccionados a partir do palco, são imagem mais impressionante para os músicos do que tudo o que eles nos possam mostrar. Os Parcels, por exemplo, agigantaram-se, partindo de uma música não muito complexa mas com uma irresistível matriz dançável — fazendo lembrar os Jungle, e nunca inferiores a eles, ou até os Daft Punk nas suas experiências mais suculentas —, e lembraremos ternamente os Spiritualized de Jason Pierce, ele que, sentado à direita do palco, neste gesto simples envolveu inteligentemente todo o público num apoteótico espectáculo quase-comunitário. 

Mas, para nós, nada suplantará a crua energia dos black midi, que apontam, nos próximos anos, à reformulação do rock como o conhecemos. O palco secundário recebia-os absolutamente lotado, e, ainda antes de chegarem a palco, ofereceram-nos um pouco de Charli XCX (e, por isso, amámo-los ainda mais). Depois, foi um festim: quatro jovens músicos em palco, com canções compostas e lançadas, a desbravar caminho de uma a outra estabelecendo pontes em forma de jam e improvisação; errando e tornando a dar, à procura de um caminho, perdendo-se voluntariamente para logo depois se reencontrarem. É sinal de coragem e irreverência. Coisas próprias da juventude, claro, mas nem todos querem ser jovens como eles. 

Também os KOKOKO! merecem uma sentida referência. Provenientes de Kinshasa, foi deles a festa do primeiro dia (precedendo o Nuno Lopes), e juntaram, de um lado, a música de dança necessária para o final da noite, e do outro tudo o resto que os eleva além de ser apenas música de dança. Em suma, trouxeram com eles uma série de instrumentos improvisados e reciclados — o que por si só já seria meritório — e também a estrutura e características da música africana; e isto, num cartaz algo anglo-cêntrico, os distingue dos demais. 



De resto, notou-se alguma clivagem entre duas estéticas distintas neste cartaz: dum lado, os nomes estabelecidos que já mencionámos, cujos espectáculos não fizeram justiça ao seu potencial — caso dos New Order —, ou foram simplesmente desapontantes e algo desenquadrados — infelizmente, ocorre-nos os The National. Num festival tão distintamente jovem e optimista, se o revivalismo vier a ter espaço terá que o conquistar junto de uma falange que reclama energia e risco — valeu-se Patti Smith do seu carisma e empatia natural para que a coisa resultasse. 

De qualquer forma, Paredes de Coura existirá sempre, com as naturais flutuações no apelo do cartaz, porque é um festival que se ergue para lá da oferta musical. Basta que haja o rio, e uma sombra ou outra; não nos tirem isso, e ter-nos-ão sempre por aqui. Chamem-lhe Couraíso, ou o que quiserem — é a nossa segunda casa de Verão.